quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Psique pós revolução sexual.

Desde que o movimento hippie terminou e com ele a euforia da revolução sexual, não nos encontramos mais como sociedade, mudaram-se todas as referências e conceitos, mas dificilmente nos vemos identificados e inseridos em qualquer dos conceitos modistas atuais. É algo invisível escondido por uma indústria construída de sorrisos e poses, de tendências e rostos, de marketing e estilos musicais em prol do enriquecimento das grandes corporações. Isso me leva a ver que a impessoalidade com que as pessoas se tratam com os advindos da modernidade se dá de uma forma tão estranha e formal que chega a assustar. Chegar a qualquer lugar, na fila de um mercado, ou de um banco, na inscrição para um emprego, em uma plataforma de embarque, na ante-sala fria de um consultório médico e sentir-se o tempo todo analisado em alguns casos, julgado e condenado dadas as reações de algumas pessoas diante a menor tentativa de um diálogo. Algumas pessoas olham e prontamente já julgam e condenam o que você é, seja pelas roupas que está usando, pelos acessórios extravagantes e espalhados pelo corpo, seja pela chave do carro que carrega, pelo modelo e a marca do celular, ou mesmo, pela ausência de tudo isso. Seria essa mais uma nova doença? Um mal súbito de medo ou autopreservação? Ou seria isso apenas um transtorno da psique humana ante o novo que surge como um arranha-céu do dia para a noite? É difícil dizer, pois passamos muito rápido de hippies a cyberpunks e, entre uma etapa e outra, acabamos nos esquecendo de alguns valores e conceitos importantes para se viver em sociedade e se sentir parte dela. Caminhamos muito! Evoluímos tanto para chegar a uma sociedade que se relaciona melhor por meios digitais do que pessoalmente? Possivelmente!É estranho não haver qualquer interação gentil de uma pessoa para outra, seja com um sorriso, um olhar carinhoso, uma saudação de bom dia, boa tarde ou boa noite, tudo isso de forma espontânea. Isso tornou-se algo distante, quase impossível, praticamente uma utopia, chego a ter a impressão de que, para muitos, é algo dispensável, caso não haja qualquer interesse pessoal, profissional, financeiro, social, etc. Seria essa a nova lei? A ditadura da moda da nova ordem mundial? Ser impessoal e um pseudo-objetivo? Ainda prefiro acreditar que, na maioria das vezes, esse ato de indiferença é involuntário, alguma forma de defesa do indivíduo, por mais estranho que seja isso, algo primitivo que esteja programado em nosso código genético, ou algo como um vírus que é passado de geração em geração, de pai e mãe para filhos. Se o mundo em que vivo é o meu reflexo, creio que me esqueci de tomar banho, de lavar o rosto ao acordar, de escovar os dentes e de falar bom dia para mim mesmo ao nascer. Onde foi? Em que ponto da história nos afastamos tanto uns dos outros? Vejo pessoas tão distintas, graciosas, educadas, sofisticadas, interessantes e sensíveis pela internet, algumas me parecem até cheirosas de tão competentes na forma utilizada para se mostrar, "vender". Mas quando chego perto dessas pessoas, não é bem isso o que vejo, ou o que sinto, às vezes até mesmo no cheiro! Não sinto essa vivacidade, essa disposição, a capacidade de compilar e executar o que está escrito nos programas de relacionamento para vida real, a vida digital nos fez de fato reencontrar algo de bom, ou talvez, o melhor de nós, o melhor que até então vivia escondido, ocupando páginas de cadernos, contracapas de velhos livros e diários solitários, ou não! Guardados a sete chaves em um baú cheio de cupins. Hoje temos a chance de externar e mostrar para o mundo o quanto somos bons e capazes, o quanto somos diferentes, ou o quanto de fato temos a necessidade de sermos iguais uns aos outros, o que nos falta é colocar em prática toda essa disposição de nos tornarmos seres completos e melhores.Ou tudo isso não passaria de apenas mais uma dissimulação humana? Creio que este seja um bom debate para que cada um de nós tenha consigo mesmo.

Edson Carvalho Miranda
18-02-2009

2 comentários:

Soraia disse...

Pura verdade quando refere-se que evoluímos tanto para chegarmos ao ponto de nos relacionarmos melhor pelo meio digital!! Nós humanos estamos deixando de lado o prazer de estarmos rodeados de amigos carnais, para ficarmos plantados durante horas e horas na tela de um computador perante os amigos virtuais. Estamos perdendo o gostinho que é estar ao lado de uma pessoa especial, ficando abraçados, agarradinhos, namorar na calçada de casa, dentro do carro, ver o céu numa noite estrelada; Para ficarmos "namorando virtualmente" isso é patético...a que ponto chegamos?????

Alessandra disse...

Meu querido, achei muito interessante o texto, diferente, bem pensado e, como tudo o que você escreve, tocante, embora tenha deixado um gostinho amargo na boca, pois eu senti que o homem está caminhando a grandes passos para o abismo da solidão.
Beijos